sábado, 25 de abril de 2009

Em colapso

As leis ambientais foram criadas na tentativa de evitar o colapso econômico de cidades ou nações inteiras em todas as partes do mundo. Não faltam exemplos, com evidências bem claras, de regiões altamente desenvolvidas economicamente que após arruinarem o meio ambiente viram a prosperidade transformar-se em miséria da noite para o dia.
Todo este aprendizado com a história da humanidade e da ciência levou as sociedades a se prevenirem. Criaram-se regras para ocupação das áreas naturais visando à proteção de recursos estratégicos, como a água.
Estabeleceu-se que a pessoa pode praticar agricultura deste que respeite as nascentes, as margens dos rios etc. Porque sem estas regras, vai faltar água na cidade, levando-a ao colapso e, consequentemente, não terá mais consumidores para os produtos agrícolas e os agricultores vão quebrar.
Logo, a prosperidade de todos está fortemente relacionada com a questão ambiental. Ninguém gosta de ser multado. Mas a sociedade ainda não encontrou outros meios de controlar a ganância das pessoas. Os motoristas infratores também reclamam muito do código de trânsito. Acham o código rigoroso demais quando recebem uma multa e perdem pontos na carteira por transitarem a 120 km/h em frente de uma escola. Já os pais de uma criança que foi atropelada em frente à escola clamam para que a lei seja mais rigorosa ainda. Por que, então, nenhum deputado é louco de propor que não se tenha mais limite de velocidade em frente das escolas ou em qualquer lugar? E que ninguém mais seja multado?
A questão ambiental não é menos grave do que esta verdadeira chacina que observamos no trânsito. O que joga contra o meio ambiente é o fato de que, apesar da gravidade óbvia, os problemas não aparecem tão rapidamente.
Geralmente, deixa-se a conta para as gerações futuras pagarem. Porém, há exemplos da fatura chegar via “sedex 10”, como na tragédia do Morro do Baú, em Ilhota .
É uma grande ilusão achar que o código ambiental de Santa Catarina vai ajudar os agricultores a resolverem seus problemas. O que os nossos agricultores precisam é de ações mais concretas como estradas boas, facilidade de crédito, valorização dos produtos e tecnologia. Fortalecer a Epagri é a melhor estratégia para desenvolver e repassar esta tecnologia de modo a garantir a prosperidade ao homem do campo.
É fácil constatar que as leis ambientais não são culpadas pelo fracasso de alguns que tentam viver da agricultura. Geralmente, os que não vão bem são os que mais desrespeitam a leis ambientais. Dão-se mal na agricultura e tentam ganhar dinheiro partindo para a ação predatória, saqueando o pouco que resta de natureza. Destroem a mata ciliar para fazer carvão, poluem ou secam todos os riachos, capturam e vendem animais silvestres, invadem propriedades alheia etc. Estes continuarão não respeitando nem os ridículos cinco metros de mata ciliar, que é a copada de uma árvore.
Já aqueles pequenos agricultores que se dão bem não reclamam tanto assim das leis ambientais. A prosperidade e a felicidade são conseguidas com trabalho, dedicação e muita competência. Agricultura de hoje não é mais para qualquer. Não há espaço para amadores. Tem de ter eficiência.
Um exemplo que eu observei em Itaiópolis, no Norte do Estado, é o cultivo de fumo. Como tem segredos! É um conhecimento acumulado ao longo de gerações. Requer um cuidado extremo em todas as etapas, desde o plantio, passando pela secagem até o empacotamento e comercialização. Uma bobeada em alguma destas etapas... Foi-se o lucro. Os agricultores que dominam bem todas as técnicas conseguem uma boa renda com esta atividade.
A preservação do pouco que resta de nossas matas não pode levar a culpa pelos problemas sociais. O desenvolvimento sustentável de Santa Catarina depende da preservação da natureza. Resolver os problemas sociais não é permitir que as pessoas obtenham lenha arrancando as tábuas do casco do barco onde todos nós estamos a bordo.
GERMANO WOEHL JUNIOR* GUARAMIRIM
* Germano Woehl Junior é físico e ambientalista.
Ele é um dos fundadores do Instituto Rã-bugio.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

*Quem são os capangas de Mendes?*

*Publicado em 23 de abril de 2009 às 00:24
por Luiz Carlos Azenha*
A quem o ministro Joaquim Barbosa estava se referindo quando disse que não era um dos capangas de Gilmar Mendes em Mato Grosso?
Sabemos que Mendes adora agradar aos poderosos, especialmente aos brancos de olho azul. Todos os dias, na TV, vejo presos algemados.
Nem um pio do presidente do STF. Todos os dias somos informados de casos escabrosos de presos que sofrem de doenças gravíssimas -- câncer e Aids, entre outros -- e continuam presos, muitas vezes sem atendimento médico.
Nem um pio do presidente do STF. No entanto, quando se tratou de beneficiar uma empresa que cobra pedágio contestado pela população, entre Ourinhos e Jacarezinho, lá estava o canetaço de Gilmar Mendes para refazer decisões de instâncias inferiores.
Leia aqui:
Quando se tratou de atropelar os interesses dos indígenas de Mato Grosso e beneficiar indiretamente os amigos do governador Blairo Maggi, lá estava o canetaço de Gilmar Mendes.
Leia aqui:
O presidente do STF deu pernas a dois "grampos" para os quais ainda não apareceram provas: a "escuta ambiental" sem áudio do STF e o grampo sem áudio da conversa dele, Gilmar, com o senador Demóstenes Torres. São duas farsas que "estrelaram" capas da revista Veja cujo objetivo principal era salvar Daniel Dantas, demitir Paulo Lacerda e afastar o delegado Protógenes Queiroz.
Como é que pode o presidente da mais alta Corte de um país ser co-partícipe de armações tão evidentes? Agora que Joaquim Barbosa rompeu o silêncio, quem são os "capangas" de Gilmar, em Mato Grosso e fora dele?

Joaquim Benedito Barbosa Gomes é o nome dele


Conhecido como Joaquim Barbosa, apenas, ele é ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil desde 25 de junho de 2003, quando nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o único negro entre os atuais ministros do STF.

Joaquim Barbosa nasceu no município mineiro de Paracatu em 7 de outubro de 1954 (54 anos), noroeste de Minas Gerais. É o primogênito de oito filhos. Pai pedreiro e mãe dona de casa, passou a ser arrimo de família quando estes se separaram.

Aos 16 anos foi sozinho para Brasília, arranjou emprego na gráfica do Correio Braziliense e terminou o segundo grau, sempre estudando em colégio público. Obteve seu bacharelado em Direito na Universidade de Brasília, onde, em seguida, obteve seu mestrado em Direito do Estado. Prestou concurso público para Procurador da República e foi aprovado.

Licenciou-se do cargo e foi estudar na França por quatro anos, tendo obtido seu Mestrado em Direito Público pela Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas) em 1990 e seu Doutorado em Direito Público pela Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas) em 1993.

Retornou ao cargo de procurador no Rio de Janeiro e professor concursado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi Visiting Scholar no Human Rights Institute da faculdade de direito da Universidade Columbia em Nova York (1999 a 2000), e Visiting Scholar na Universidade da California, Los Angeles School of Law (2002 a 2003). Fez estudos complementares de idiomas estrangeiros no Brasil, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Áustria e na Alemanha. É fluente em francês, inglês e alemão.

O currículo do ministro do STF Joaquim Barbosa que vocês acabam de ler foi extraído da Wikipédia, mas pode ser encontrado facilmente nos arquivos dos órgãos oficiais do Estado Brasileiro.

"E o que mostra esse currículo?", perguntarão vocês.

Antes de responder, quero dizer que o histórico de vida de Joaquim Barbosa pesa muito neste caso, porque mostra que ele, à diferença de seus pares, é alguém que chegou aonde chegou lutando contra dificuldades imensas que os outros membros do STF jamais sequer sonharam em enfrentar.

Não se quer aceitar, nesse debate - ou melhor, a mídia, a direita, o PSDB, o PFL, os Frias, os Marinho, os Civita não querem aceitar -, que Joaquim Barbosa é um estranho no ninho racialmente elitista que é o Supremo Tribunal Federal, pois esse negro filho de pedreiro do interior de Minas é apenas o terceiro ministro negro da Corte em 102 anos, conforme a Wikipédia, tendo sido precedido por Pedro Lessa (1907 a 1921) e por Hermenegildo de Barros (1919 a 1937).

E quem é o STF hoje no Brasil?

Acabamos de ver recentementenos casos Daniel Dantas, Eliana Tranchesi etc. É o que sempre foi: a porta por onde os ricos escapam de seus crimes.

Joaquim Barbosa é isolado por seus pares pelo que é: negro de origem pobre numa Corte quase que exclusivamente branca nos últimos mais de cem anos, que julga uma maioria descomunal de causas que beneficiam a elite branca e rica do país. Sobre o que ele disse ao presidente do STF, Gilmar Mendes, apenas repercutiu o que têm dito, em ampla maioria, juízes, advogados, jornalistas, acadêmicos de toda parte do Brasil e do mundo, que o atual presidente do Supremo, com suas polêmicas midiáticas, com denúncias de grampos ilegais que não se sustentam e que ele até já reconheceu que "podem" não ter existido -depois de toda palhaçada que fez -, desserve à instituição que preside e ao próprio conceito de Justiça. Gilmar Mendes pareceu-me ter querido "pôr o negrinho em seu lugar", e este, altivo, enorme, colossal, respondeu-lhe, com todas as letras, que não o confundisse com "um dos capangas" do supremo presidente "em Mato Grosso". Falando nisso, a mídia poderia focar nesse ponto, sobre "Mato Grosso", mas preferiu o silêncio. Esperemos...

Finalmente, esse episódio revelou-se benigno para a nação, a meu juízo, pois mostrou que ainda resta esperança para a Justiça brasileira. Enquanto houver um só que enfrente uma luta aparentemente desigual para si simplesmente para dizer o que falam quase todos, porém sem que os poucos poderosos dêem ouvidos, haverá esperança. Enquanto um resistir, resistiremos todos.

Joaquim Barbosa é um estranho no ninho do STF, entre a elite branca da nação, e está sendo combatido por isso e por simplesmente dizer a verdade em meio a um mar de hipocrisia. O Brasil inteiro sabe disso e essa talvez seja a verdade mais importante, pois dará conseqüência aos fatos.*


Matéria sobre o episódio no Jornal Nacional*

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Caminho do Meio

Caminho do Meio é um conceito budista que implica em uma abordagem equilibrada da vida e no controle dos impulsos e do comportamento das pessoas.
Embora a palavra “meio” denote moderação, o termo Caminho do Meio não deve ser interpretado como uma atitude passiva, comodista e relapsa.
Em um sentido mais amplo, Caminho do Meio refere-se à visão correta da vida ensinada pelo Buda, e às ações ou atitudes que geram felicidade para si próprio e para os outros. Por essa razão, o budismo é também referido como “Caminho do Meio”, indicando uma transcendência e conciliação dos extremos de visões opostas.
Esse conceito é exemplificado pela própria vida de Sakyamuni. Nascido como um príncipe, Sakyamuni desfrutou uma vida de conforto e prazer. Porém, não satisfeito com isso, deixou o palácio em que vivia em busca da verdade sobre a natureza da vida. Ele iniciou a prática ascética, privando-se de alimento e sono e quase chegou a sofrer um colapso. Percebendo a futilidade desse caminho, iniciou a prática da meditação fortemente determinado a compreender a verdade da existência humana. Foi então que Sakyamuni despertou para a verdadeira natureza da vida, ou seja, para a eternidade, para a fonte de vitalidade e sabedoria ilimitadas.
Mais tarde, para conduzir seus seguidores a esse Caminho do Meio, Sakyamuni ensinou sobre o Caminho Óctuplo, que consiste de oito princípios pelos quais a pessoa pode controlar seu comportamento e desenvolver o autoconhecimento.
Os oito princípios são:
1- Visão correta;
2- Pensamento correto;
3- Expressão verbal adequada;
4- Ação correta;
5- Modo de vida correto;
6- Empenho adequado;
7- Observação adequada; e
8- Meditação adequada.
A partir de então, muitos eruditos budistas tentaram esclarecer e definir a verdadeira natureza da vida.
Por volta do terceiro século, Nagarjuna explicou por meio de sua teoria da não-substancialidade do universo que nenhum fenômeno é permanente, tudo está em constante mutação. Para Nagarjuna, essa visão da vida era o Caminho do Meio.
Posteriormente, na China, as idéias de Nagarjuna foram desenvolvidas por Tient’ai (Chi-i). Tient’ai afirmava que todos os fenômenos são manifestações de uma única entidade. A essa entidade ele chamou de Caminho do Meio. Ela revela dois aspectos: um físico e o outro, não-substancial. Ao negarmos ou enfatizarmos apenas um deles estaremos distorcendo a visão correta da vida. Não podemos, por exemplo, conceituar uma pessoa sem um aspecto físico e sem um aspecto mental ou espiritual. Tient’ai esclareceu portanto a inter-relação indivisível entre ambos os aspectos. Dessa visão derivam os conceitos budistas de inseparabilidade do corpo e da mente, do ser e seu meio ambiente, da vida e da morte, do bem e do mal e muitos outros.
Nitiren Daishonin (1222–1282), por sua vez, atribuiu uma forma concreta e prática a esses argumentos abstratos. Com base nos ensinos do Sutra de Lótus, Daishonin definiu o Caminho do Meio como Nam-myoho-rengue-kyo e ensinou que recitando essa frase as pessoas podem harmonizar e energizar os aspectos físico e espiritual e despertar para a mais profunda verdade da vida.
Dessa perspectiva, a vida — a energia vital e a sabedoria que permeiam o cosmos e manifestam-se em todos os fenômenos — é uma entidade que transcende e harmoniza as contradições aparentes entre os aspectos físico e mental e entre a vida e a morte.
As pessoas em geral tendem a uma visão predominantemente materialista ou então espiritualista da vida. Os efeitos negativos do materialismo que permeiam o mundo industrializado moderno são aparentes em cada nível da sociedade, da destruição ambiental ao empobrecimento espiritual. Não podemos simplesmente rejeitar o materialismo. Isso equivaleria ao idealismo ou ao escapismo e destruiria nossa capacidade de reagir aos desafios da vida de forma construtiva.
O historiador Eric Hobsbawm intitulou sua obra sobre o século XX de Era dos Extremos. De fato, a violência e os grandes desequilíbrios dessa era salientam a necessidade de um novo caminho de reconciliação pacífica dos aparentes opostos. Esse é o Caminho do Meio em que o respeito à vida prevalece, o caminho condutor a uma era de verdadeiro humanismo.
Fonte: TERCEIRA CIVILIZAÇÃO, EDIÇÃO Nº 402, PÁG. 12, FEVEREIRO DE 2002. Editora Brasil Seikyo
Visite:
http://www.bsgi.org.br

Volume de água do rio São Francisco caiu 35% em 50 anos

Uma pesquisa feita por cientistas norte-americanos aponta que o fluxo de água na bacia do rio São Francisco, que nasce em Minas Gerais e deságua no nordeste do Brasil, caiu 35% no último meio século. O estudo, que será publicado no próximo dia 15 de maio no Journal of Climate, da Sociedade Meteorológica Americana, foi feito por pesquisadores do National Center for Atmospheric Research (NCAR), que fica no Estado americano do Colorado.
Eles analisaram dados coletados entre os anos de 1948 e 2004 nos 925 maiores rios do planeta, e concluíram que vários rios de algumas das regiões mais populosas estão perdendo água. De acordo com os pesquisadores, a bacia do São Francisco foi a que apresentou o maior declínio no fluxo de águas entre os principais rios que correm em território brasileiro durante o período pesquisado.
Neste mesmo período, o fluxo de águas na bacia do Amazonas caiu 3,1%, enquanto as bacias de outros rios brasileiros apresentaram uma elevação na vazão. O fluxo de águas no rio Paraná (que termina na Argentina), por exemplo, apresentou um aumento de 60% no período pesquisado, enquanto a bacia do Tocantins registrou um acréscimo de 1,2% em sua vazão.
Segundo o cientista Aiguo Dai, o líder da pesquisa, esta variação está relacionada principalmente a mudanças na quantidade de chuvas nas regiões das bacias.
Estas alterações nos níveis de precipitações, de acordo com o pesquisador, estariam relacionadas, principalmente, ao fenômeno meteorológico El Niño, que consiste em um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico e que afeta o clima da região e do planeta. Dai afirma que, entre 1948 e 2004, a região da bacia do rio São Francisco apresentou uma leve queda nos níveis de precipitações e um grande aumento de temperatura.
Estes dois fatores contribuíram para o grande declínio do escoamento do rio. Segundo ele, o aumento das temperaturas eleva a evaporação, e assim, reduz o fluxo de água do rio. "Eu avalio que algumas destas mudanças na temperatura e nas precipitações estão relacionadas às mudanças nas atividades do El Niño, mas não todas elas", afirma o cientista.
De um modo geral, o estudo aponta que alguns dos rios mais importantes do planeta e que abastecem áreas populosas estão perdendo água. Um terço dos 925 rios pesquisados apresentaram mudanças significativas nos fluxos de água no período, sendo que aqueles que perderam vazão ultrapassam os que ganharam em uma proporção de 2,5 para 1.
Entre os rios que apresentaram declínios na vazão estão alguns que servem a grandes populações, como o Amarelo, na China, o Niger, na África, e o Colorado, nos Estados Unidos. Em contraste, os pesquisadores constataram um aumento considerável na vazão de rios em áreas pouco habitadas no Oceano Ártico.
Entre os que permaneceram estáveis ou que registraram um pequeno aumento no fluxo de água estão o Yang Tsé, na China e Bhrahmaputra, na Índia. Segundo os pesquisadores, muitos fatores podem afetar a vazão desses rios, incluindo barragens e o desvio de água para a irrigação.
Fonte: revista DAE - www.revistadae.com.br
23 de Abril de 2009

Com a palavra a Senadora Marina Silva:


O que me traz a esta tribuna são os ataques e retrocessos à legislação ambiental de nosso País. O meio ambiente é um tema estratégico para o nosso tempo, para este século. Como muitos já disseram, estamos vivendo a era dos limites, e não haverá saída se não formos capazes de resolver a crise ambiental global que estamos atravessando.

No Brasil, vemos atualmente uma situação estranha, que marcha na contramão da História e dos movimentos das demais nações do mundo. O movimento ambiental começou a ganhar força no mundo após a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em1972, em Estocolmo, na Suécia. E, aqui no Brasil, após aConstituição de 1988, a partir da comprovação, cada vez mais cabal ealarmante, de que a forma como as atividades econômicas vinham sendo desenvolvidas estavam provocando danos graves e muitas vezes irreparáveis ao meio ambiente e à saúde das populações.

Neste segundo mandato do Presidente Lula, declarações de diversas autoridades públicas, bem como a manifestação de diversos representantes da área econômica nacional, estão buscando cunhar um novo diagnóstico: no lugar do meio ambiente, vítima das atividades econômicas malconduzidas, são as atividades econômicas que estariam sendo prejudicadas devido ao excesso de proteção do meio ambiente.

Essa inversão a gente vai percebendo no discurso, na narrativa, nas atitudes e nos encaminhamentos práticos que, mais adiante, vou mencionar. As evidências disso estão por toda parte. Podemos vê-las nas declarações públicas de algumas das mais altas lideranças políticas empresariais deste País, de vários setores das atividades produtivas e também de autoridades públicas,como, por exemplo, o Ministro da Agricultura, dos Transportes, das Minas e Energia, da Pesca, de Assuntos Estratégicos. Todos parecem buscar formar na sociedade a percepção de que foi um erro, ou talvez um deslize, terem sido criadas as leis e as instituições que têm a finalidade de proteger o meio ambiente. Alguns deles dizem abertamente que "a legislação ambiental do País foi criada para atender a interesses de estrangeiros ou a interesses escusos não confessos". Essa declaração foi do Ministro Mangabeira Unger; saiu em jornais do País e não foi desmentida.

Não faltam matérias na mídia em que representantes dos segmentos do agronegócio, da infraestrutura se revezam em um jogral de satanização das conquistas ambientais que a sociedade brasileira conseguiu inscrever no arcabouço legal de nosso País. Como exemplo, posso citar o caso de alguns segmentos do agronegócio. Agora estão imbuídos em "convencer" a sociedade brasileira de que a legislação que protege o que restou da floresta, que protege a nossa biodiversidade e as margens dos rios é a maior inimiga para o crescimento e expansão da agricultura no País.

Essa inversão é nefasta, porque é exatamente o contrário. A proteção das florestas, da biodiversidade é a maior responsável pela proteção e pelo crescimento sustentável da agricultura, tão necessária ao desenvolvimento de nosso País. Basta ver que, para se produzir um quilo de frango, fazendo um cálculo bem subestimado, precisa-se de dois mil litros de água. Para um quilo de grãos, precisa-se de cerca de uma tonelada de água. Portanto, a proteção das florestas como responsável pela garantia e preservação dos cursos d'água não pode ser confundido como algo nefasto à agricultura.

Aproveitam para dramatizar ainda mais, dizendo que isso vai aumentar os preços dos alimentos e provocar escassez e fome. Com esse argumento, mudou-se a legislação ambiental no Estado de Santa Catarina - inclusive uma legislação estadual mudando uma lei federal, o que é claramente inconstitucional.

Quero ainda ressaltar, Sr. Presidente, que essa desdita, essa difamação que vem sendo feita da legislação ambiental brasileira é sempre acompanhada, seguida, de um conjunto de medidas que vão na direção de mudanças na legislação, em prejuízo dos acúmulos já alcançado.

Segundo declarações recentes do próprio Presidente Lula, o Brasil tem 60 milhões de hectares de terras agrícolas degradadas que precisam ser recuperadas. Note bem, Sr. Presidente, 60 milhões de hectares de terras agrícolas, agricultável degradada que precisam ser recuperadas. Como essas terras ficaram degradadas? Com certeza não foi em função da ação da legislação ambiental. Foi exatamente o contrário: ações permissivas de modelos de desenvolvimento predatório levaram essas áreas a se tornarem inteiramente improdutivas.

E para se tornarem novamente produtivas serão necessários altos investimentos. Se os cuidados tivessem sido tomados à época, com certeza isso não teria acontecido. Na ocasião, talvez, não se tivesse o conhecimento técnico-científico, o conhecimento político e a sensibilidade social para o problema da degradação ambiental e, consequentemente, da degradação dos solos. Naquela época não tínhamos, ainda, atentado para esses aspectos. Agora, não há nenhuma justificativa para se continuar defendendo o mesmo modelo predatório em prejuízo de uma ação preventiva que nos leve a um novo paradigma de desenvolvimento para todos os setores da sociedade.Com a agricultura não é diferente.

A propósito, seria bom que a Comissão de Meio Ambiente - e vou sugerir isso ao meu amigo o Senador e Presidente Casagrande - promovesse a exibição e um debate sobre o excelente comentário feito pelo jornalista Marcos Sá Corrêa e João Moreira Salles, cujo título é O Vale. Esse documentário, Sr. Presidente, trata da devastação da Mata Atlântica no Vale do Paraíba. É comovente assistir ao documentário. Terminei de vê-lo chorando, pois termina com uma imagem dramática. Mostra tudo o que aconteceu no Vale do Paraíba. Depois vai para uma região do Pará, parece-me que é a região de Altamira, e termina focando uma grande área devastada como se dissesse que cem anos depois eles se mudaram para cá em uma economia de rapina que não respeita os processos de regeneração dos ecossistemas. Além dessas questões que estou mencionando aqui, Sr. Presidente,uma série de outros eventos vem acontecendo. Um deles é esse da desqualificação das pessoas que defendem o meio ambiente, da legislação ambiental brasileira.

Uma coisa é certa: quando alguém... O Presidente Lula uma vez repetiu uma frase, que tomo emprestada não só do autor, mas já terceirizando-a do próprio Presidente Lula: "Não se importa que alguém tire uma flor do seu jardim? Depois, entra na sua casa, toma sua mulher, seus filhos e faz coisas muitos piores". Já não estão mais no nosso jardim. Já entraram há muito tempo na nossa casa, arrombando as portas da legislação ambiental brasileira. Só noCongresso Nacional são cerca de 18 projetos de decretos legislativos que propõem anular medidas administrativas de proteção ao meio ambiente, de criação de terras indígenas e de unidades de conservação, tanto do Ministério do Meio Ambiente quanto do Ministério da Justiça. São 18 projetos, Sr. Presidente.

Quanto às medidas provisórias, temos uma grande quantidade delas que, especificamente, vêm em prejuízo da legislação brasileira, sem falar naquelas que, não sendo objeto da legislação ambiental brasileira na sua origem, são geneticamente modificadas aqui dentro e são colocadas comoverdadeiros cavalos de troia, em prejuízo dos avanços da legislação ambiental e das conquistas que já tivemos ao longo dos tempos.

Mas, para não ficar criticando os projetos de decretos legislativos dos colegas, porque são Senadores e Deputados que têm o direito de apresentar as suas propostas de lei, os seus projetos - mesmo divergindo do mérito, sei que eles têm esse direito -, vamos discuti-los e, no debate democrático, no discurso fraterno e na discussão do mérito, aprová-los ou não. Eu espero que não sejam aprovados porque serão maiores ainda os prejuízos. Mas é melhor a gente se ater à própria Casa e, dentro de Casa, a mim não me agrada, em hipótese alguma, o que está acontecendo. Primeiro, foi a Medida Provisória nº 422, que mudou os processos de regularização de terras na Amazônia, ampliando o limite de 400 hectares para 1.500 hectares de terras públicas. Foi aprovada um dia desses.

Graças a Deus, com o meu voto contra e o da minha Bancada, exceto por um Senador da minha Bancada, do Estado de Roraima, mais outros Senadores, somando 28 Srs. Senadores contrários a essa medida provisória a que colocamos a alcunha de Medida Provisória a Grilagem.

Agora nós temos a MP 458, que também trata de regularização fundiária. AMP 458, a despeito de enfrentar o caso fundiário da Amazônia, com a finalidadede aumentar a governança ambiental e a justiça social na região, foi concebida a partir da lógica do crescimento do fato consumado e assim, certamente, irá aprofundar os dois problemas, que são a grilagem - as pessoas ocuparam indevidamente as terras na Amazônia e agora vem um processo de regularização que vai alcançar aqueles que, de boa fé, têm posse mansa e pacífica e que já estavam contemplados no plano de combate ao desmatamento, quando elaboramos o plano, com os eixos que propusemos. E dentro de um dos eixos, que era o de ordenamento territorial e fundiário, estava a questão da regularização fundiária. Infelizmente foi abandonada a ideia, a estratégia do ordenamento territorial e fundiário e ficamos só com a regularização.

Essa regularização da forma como está proposta, ainda que com o cuidado dos Ministérios do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário de colocar algumas ressalvas para que as pessoas estivessem de acordo com a legislação ambiental, respeitando reserva legal e áreas de preservação permanente e outros dispositivos, tem outros artigos, Sr. Presidente, que dizem que o processo é autodeclaratório e que dispensa a vistoria.

Ora, Sr. Presidente, se o processo é autodeclaratório e dispensa a vistoria, todas as cláusulas que estão postas, com todo respeito, acabarão sendo "para inglês ver",porque ninguém que agiu de má-fé, que invadiu terra de forma criminosa vai declarar que de fato não tem direito àquela terra, que de fato a sua posse não é mansa e pacífica e que tem um monte de"laranjas" que estão querendo se regularizar.

Essa medida provisória está tramitando. Ela poderia ser uma limonada, mas será um limão para a sociedade brasileira, um limãopara a Amazônia e um limão para esta Casa, para o Congresso Nacional, que ficará na história por, em plena crise ambiental global, estara brindo literalmente a porta para regularizar, titular, privatizar 64 milhões de hectares de terras na Amazônia, um total equivalente ao Estado de Minas Gerais e de Santa Catarina.

Quando veio para esta Casa o projeto de gestão de florestas públicas, que tratava de 13 milhões de hectares por cerca de 20 anos, em um processo altamente transparente e controlado que previa inclusive auditorias independentes de pesquisadores, de cientistas, em um processo de licitação em que as florestas continuarão florestas e continuarão públicas, em um processo em que a prioridade para criação de unidade de conservação, demarcação de terra indígena, assentamento de comunidades tradicionais - depois é que seriam feitas asconcessõesonerosas em licitação -, quando há todo um processo de responsabilização, diziam que era privatização da Amazônia. Agora, são 64 milhõesde hectares, com dispensa de vistoria, em um processo autodeclaratório. E eu não ouço os que diziam que era privatização dizerem que agora, sim, é privatização, para que deixem de ser floresta se não tivermos cuidado e ainda se transformem em terras privadas.

Continuando, Sr. Presidente, uma outra medida provisória, a MP 450, está criando um precedente pelo qual, no meu entendimento, poderemos ter novas Balbinas sendo construídas neste País, depois de tantas décadas de um empreendimento de triste memória que nos ensinou muito, e ensinou pelo erro, nos ensinou pela dor. Podemos estar abrindo novos precedentes para novas Balbinas.

Vou ler rapidamente, Sr. Presidente, pois sei que já estou abusando do acolhimento de V. Exª, o que diz a Medida Provisória nº 450. Outro exemplo é o da MP nº 450, que foi aprovada na quinta-feira na Câmara e que traz um artigo que guarda um grande potencial de problemas e agressões ambientais - podemos estar diante de novos desastres da dimensão de Balbina.

A "bomba" está no art. 17 da referida MP. A atual legislação das usinas hidráulicas até 30MW, que são as PCHs, estabelece limites para o tamanho do lago, que deve obedecera uma fórmula que define uma relação entre o tamanho da barragem, a capacidade instalada e a área do lago, limitado a 3km². Ou seja, o lago de uma PCH não pode ultrapassar 3km², Sr. Presidente. O art. 17 da referida MP, que é o cavalo de Tróia que sempre está chegando aqui, cria uma nova categoria de usinas hidráulicas, entre 30MW a 50MW, que terão rito sumário de autorização...

O SR. PRESIDENTE (Mão Santa. PMDB - PI) - Senadora, acabou a lei; agora, a graça. A senhora quer quanto tempo da graça divina?

A SRª MARINA SILVA (Bloco/PT - AC) - Olha, o tempo da lei tinha um limite, que era até o Novo Testamento. O tempo da graça é ilimitado; todavia, quando setem a graça, a gente mesmo cria a lei. E eu estou indo para me autoconter. Muito obrigada.

Na referida MP, as autorizações "sem as características de pequenas centrais hidrelétricas", ou seja, sem limites para o tamanho do lago, isso implica que poderemos ter muitas Balbinas espalhadas por aí, porque não há mais limite para o tamanho do lago de 30MW a 50MW e não haverá processo de licenciamento. Será um rito sumário,Sr. Presidente. Não haverá um processo crível, respeitável.

Por último, Sr. Presidente, a Medida Provisória nº 425 foi encaminhada ao Congresso Nacional, para tratar do Fundo Soberano. Na discussão, na Câmarados Deputados, o Deputado Guimarães, do Ceará, apresentou uma emenda que dispensa os processos de licenciamento para investimentos que, segundo entendimento dele, já estão consolidados.O que seriam esses investimentos consolidados? E qual seria o alcance para, enfim,recuperação de estrada, duplicação de estrada ou estradas que já têm uma picada, uma pequena vicinal? Acontece, Sr. Presidente, que, quando se tem um pequeno ramal, como chamamos lá no Acre, ou uma pequena vicinal, e isso é transformado em uma BR asfaltada, com toda uma infraestrutura logística, a história nos mostra que, pelo menos, 50km de um lado,50 km do outro são destruídos.

No meu entendimento, essa flexibilização de alcance não mensurado por aqueles que propuseram e por aqueles que aprovaram essa medida provisória - e me parece que uma boa parte nem tinha consciência do que estava aprovando, para fazer justiça com alguns que, agora, com toda certeza, podem ir a público e dizer que não conheciam o alcance e o prejuízo que poderiam estar causando ao País e, particularmente, à Amazônia - vai favorecer um empreendimento que é de altíssima gravidade, de altíssima complexidade ambiental, que é a BR-319, no Estado do Amazonas.

É uma das obras do PAC. O problema é que para viabilizar aso bras do PAC não precisa passar por cima da legislação ambiental brasileira. Nós licenciamos a BR-163 dentro de um processo amplo, complexo, envolvendo 22 Ministérios, Sr. Presidente. Mas fizemos um plano de desenvolvimento sustentável para a área de abrangência da BR, que eu espero seja implementado.

A licença foi dada sem questionamento de nenhum segmento da sociedade, com um consórcio socioambiental para acompanhar os investimentos. Infelizmente, as coisas não têm andado, porque aquilo que é feito de forma estruturante dá mais trabalho, é mais difícil, mas, com certeza, é melhor do que os atalhos. Para concluir, Sr. Presidente, quero chamar a atenção de cada um de nós aqui. Essa medida provisória foi aprovada na Câmara dos Deputados.

Com todo o respeito aos meus colegas parlamentares, ela virá agora para o Senado. Eespero que este Senado,que, simbolicamente, é a Casa da reflexão; este Senado, que, simbolicamente, é a Casa dos homens e mulheres mais amadurecidos - eu já tenho 51 anos -; possa fazer jus à ideia de um espaço da política institucional que tenha a obrigação não só de pensar aquie agora, mas de ter um pensamento estratégico, uma visão de desenvolvimento sustentável, que seja capaz de fazer jus à potência ambiental que é o Brasil. Que possamos preparar este País para o século XXI, na energia, no transporte, na agricultura, na educação, na saúde, nas mudanças climáticas que precisamos enfrentar em todos os seus aspectos. Que possamos fazer ver um fato ao Presidente Lula, que eu não sei se foi do conhecimento dele.

Hoje um Deputado, na Comissão de Meio Ambiente, disse que teve o encaminhamento da Casa Civil, mas eu espero que esta Casa possa reparar esse erro lamentável de abrir as porteiras para a devastação da Amazônia na situação que nós estamos vivendo de metas de redução de desmatamento, de metas em relação à redução de emissão de CO2, com catástrofes ambientais em todo o Planeta. E o Brasil, que tem um grande diferencial de ser um país que pode fazer a diferença, mesmo sendo um país em desenvolvimento, está perdendo sua vantagem diferencial.

Que possamos nos debruçar sobre essa matéria e, com todo respeito pelos Srs. Deputados, reparar o que aconteceu.

Trata-se da MP 405-42. Nós devemos reparar o que foi aprovado na Câmara dos Deputados. Se por ventura (espero em Deus que não aconteça) for aprovado aqui também, espero que o Presidente Lula, em respeito ao esforço que ele fez nestes últimos quase oito anos de mandato (com plano de mudança climática, com plano de combate ao desmatamento, tendo reduzido a emissão de CO-2 em mais de um bilhão de toneladas, criado quase 30 milhões de hectares de unidade de conservação, tendo feito um esforço para haver medidas estruturantes de combate ao desmatamento), ponha um freio de arrumação nisso.

Cada um acha que pode dar palpite nas questões ambientais como se não tivéssemos uma política com estrutura,com vértebra! Que o Presiden tevete o artigo que abriu a porteira para se fazer investimento desta envergadura sem licença prévia para isso. Mas espero que isso não seja preciso porque não é verdade todo esse discurso de desqualificação da legislação ambiental brasileira, em que as pessoas primeiro vão dizendo que a legislação foi feita com interesses escusos, que ela atrapalha o desenvolvimento, que os ambientalistas não se preocupam em ter energia, em ter estrada. Não é verdade!

Durante muito tempo, Senador Marco Maciel, os ambientalistas perguntavam aos desenvolvimentistas: "O que vocês podem fazer pelo meio ambiente?" Agora somos nós, os ambientalistas, que estamos dispostos a contribuir para ajudar o desenvolvimento.

Já foram chamados os ambientalistas para ajudar o Governador Blairo Maggi. Hoje, vi numa revista ele e o Ministro Minc dizendo que estão numa relação muito próxima. Eu até disse que só foi possível essa proximidade porque, no momento em que o Governador propôs revogar as medidas do Plano de Combate ao Desmatamento, as medidas foram sustentadas pela sociedade brasileira, mesmo com a minha saída do Ministério e com a chegada do novo Ministro, que deu continuidade às medidas. Agora é possível uma sinalização de que vão "fumar o cachimboda paz". Mas, se as medidas tivessem sido revogadas como ele queria, com certeza, o desmatamento estaria aumentando. Espero podermos fazer aqui um amplo debate, com uma visão estratégica do que é o desenvolvimento em pleno século XXI, em plena crise ambiental global num País que tem a magnitude e a dimensão do Brasil, a responsabilidade, a audiência que tem o Brasil por ser um País menos adverso, por ser a maior potência hídricado planeta. Concedo o aparte a V.Exª, Senador Garibaldi Alves Filho.

O Sr.Garibaldi Alves Filho (PMDB - RN) - Senadora Marina Silva, quero congratular-me com V. Exª não apenas pelo conteúdo das suas palavras, mas até mesmo pela vibração, pelo entusiasmo com que V. Exª aborda os problemas da Amazônia, sobretudo problemas ligados ao meio ambiente. Quero dizer da minha admiração pelo trabalho de V. Exª não apenas como Parlamentar, mas também como Ministra que lançou as bases para uma efetiva política de proteção ambiental que se concretiza hoje graças ao trabalho de V. Exª e, agora, com o atual Ministro do MeioAmbiente, Carlos Minc, que está continuando esse trabalho. Portanto, é sobretudo esta palavra de admiração que eu quero trazer e incorporara o discurso de V. Exª.

A SRª MARINA SILVA (Bloco/PT - AC)- Muito obrigada, Senador Garibaldi, nosso Presidente do Congresso até ainda há pouco. Agradeço as palavras afetuosas de V. Exª e concluo, Sr. Presidente, dizendo que o Congresso - façamos justiça - tem, aquino Senado, uma comissão de meio ambiente, uma comissão de mudanças climáticas. Estamos criando estruturas novas dentro da Casa para debater o tema e que, aos poucos, ele possa ser internalizado não apenas no nosso discurso, no espaço institucional, mas nas nossas decisões.


Discurso da senadora Marina Silva proferido no Plenário do Senado Federal no dia 16.04.2009

DIA MUNDIAL DO PLANETA TERRA.

Temos realmente algo para comemorar no Dia da Terra?O Dia da Terra começou em 22 de abril de 1970 quando o Senador norte-americano Gaylord Nelson convocou o primeiro protesto nacional contra a poluição. O senador neste ano viajava por diversos estados americanos denunciando a degradação ambiental pelo qual estava passando os Estados Unidos e tentando convencer o governo do presidente John Kennedy a colocar a preocupação com o meio ambiente na sua agenda. Com a Guerra do Vietnã em alta, pouca coisa avançou oficialmente, mas os esforços se pagaram e mais de 20 milhões de pessoas organizarão demonstrações e protestos em vários estados americanos. Somente a partir de 1990, que o Dia da Terra começou a ser festejado em todos os países.Mas afinal o que temos para comemorar no Século 21, nos 39 anos do Dia da Terra?
A começar pela crise ambiental que se aprofundou ao ponto do Planeta estar na eminência de um colapso do clima devido ao aquecimento global! De termos destruído quase todas nossas florestas nativas, poluído rios e mares, envenenado solos férteis com tanto agrotóxico e de quebra colocarmos dezenas de espécies na lista de extinção! Certamente temos uma minoria consciente que vem fazendo alguma coisa nestes quase 40 anos. Mas será o suficiente para deixarmos um Planeta habitável para as futuras gerações?
No livro "Colapso - como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso", o geógrafo Jared Diamond nos conta com dados históricos e científicos como ocorreu o "eco-suicídio" de grandes civilizações, isto é, as que exploraram em excesso os recursos naturais, movidos pela necessidade ou pela imprevidência, caminharam para o fracasso e sua total extinção. Ao contrário daquelas que entenderam a tempo que a continuidade da vida estava intimamente associada às suas capacidades de se adaptarem às mudanças. Sociedades que souberam cuidar dos seus recursos naturais foram mais bem sucedidas ao se antecipar às alterações climáticas e ambientais de modo a conseguir sobreviver à elas.
Mesmo no meio da atual crise financeira, os Estados Unidos ainda são o Xerife da Terra. Será que o Obama terá a capacidade de liderar uma revolução sustentável para que todos os países comecem a reverter nosso eco-suicídio? Não bastará apenas os Estados Unidos aderir ao novo protocolo que substituíra Quioto em 2012 para maior controle das emissões dos gases do Efeito Estufa (GEE). Se realmente queremos salvar o Planeta, deverão haver acordos e comprometimentos reais para que haja reduções de GEE que podem chegar a 80%, conforme sugere os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês). Obama guerreiro irá liderar a batalha contra o lobby da indústria do petróleo para que estas metas sejam alcançadas? Poderemos ter uma economia mundial que não esteja baseada apenas em bancos e montadoras de automóveis?
E o que dizer do país que canta no seu hino "teus risonhos, lindos campos têm mais flores" e "nossos bosques têm mais vida", onde um bando de deputados federais do agronegócio querem derrubar o código florestal, a única lei que ainda garante que não seja destruído o pouco que restou das nossas florestas e matas ciliares! Em Santa Catarina o código já desmoronou como os morros na tragédia do Vale do Itajaí! A força da motossera é poderosa...terá força o Minc ou caíra como Marina?Temos que fortalecer o ministério do meio ambiente e descartar os Lobões da Energia (só queremos lobo na floresta). Ministros que apoiem energias renováveis e não termelétricas que aumentarão a pegada de carbono do Brasil. Não queremos só Fome Zero, queremos também Carbono Zero, Água e Esgoto sujos Zero, Miséria e Violência Zero, Analfabetismo Ecológico Zero. Ver Agendas 21 saindo do papel, queremos educar para a sustentabilidade!
E agora José? ou melhor Luís Inácio? O Obama disse que você é cara! Então mostra tua cara e diga ao que veio...um Brasil com futuro para seus e nossos netos? Ou um Brasil sem florestas, carbonizado e desfigurado? A Terra deve ser festejada todos os dias pois sem ela pouco temos que comemorar!
Eloy F. Casagrande Jr, PhD - eloy.casagrande@gmail.com
Universidade Tecnológica Federal do Paraná

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Minc confirma R$ 48 milhões para projetos ambientais na Região dos Lagos‏

Os municípios da Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, vão receber R$ 48 milhões para novos projetos e cursos de preservação ambiental.
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, confirmou a liberação do dinheiro na cerimônia de apresentação do plano de manejo da Área de Preservação Ambiental (APA) de Massambaba, entre Cabo Frio e São Pedro da Aldeia, e da formação do consórcio dos municípios para instalação de um aterro sanitário, na divisa de Araruama e Saquarema.
Minc elogiou os projetos já em andamento e os resultados obtidos e garantiu a continuidade dos trabalhos de preservação de áreas de conservação e de despoluição da Lagoa de Araruama – que no início deste ano sofreu com a mortandade de toneladas de peixes em conseqüência da decisão da Pró-Lagos (empresa de águas e esgotos da região) de despejar esgoto in-natura na lagoa.
“Os investimentos em projetos de conservação e recuperação do meio ambiente que estão em andamento aqui devem servir de modelo e serem replicados para o resto do país”, afirmou Minc aos prefeitos da região.
O ministro do Meio Ambiente disse ainda que a medida é apenas “o ponta pé inicial”, e que ainda há muita coisa a fazer em prol da preservação das dunas, dos manguezais, das lagoas e unidades de conservação da Região dos Lagos.
(Fonte: Nielmar de Oliveira/ Agência Brasil/ Agência Brasil)

domingo, 19 de abril de 2009

Amazônia: moeda de troca do PAC

Para governo, Amazônia desponta como a melhor estrada para levar Dilma àpresidência*
*Brasília (DF), 15 de abril de 2009* – Em um ato de inaceitável oportunismo político, o plenário da Câmara aprovou ontem emenda proposta pelo deputado petista José Guimarães (CE) que dispensa de licença ambiental prévia as obras em rodovias brasileiras.
A medida, que serve para acelerar as obras do PAC, foi incluída na Medida Provisória (MP) 425/2008, que tinha como propósito autorizar o governo federal a usar títulos da dívida pública para injetar recursos no Fundo Soberano do Brasil (FSB). O deputado José Guimarães é também o relator da matéria.
A medida fixa um prazo máximo de 60 dias para que a autoridade ambiental, como o Ibama, emita o licenciamento ambiental. Ao final desse prazo, a licença será automática. A emenda altera a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei No 6.938, 81), reduzindo as medidas que garantem a devida análise dos impactos ambientais e a definição de medidas mitigadoras ecompensatórias em obras de infra-estrutura como essas. “O deputado José Guimarães é o mesmo que teve um assessor flagrado com dólares escondidos na cueca. Agora, ele usa o mesmo artifício para enfiar, em uma MP de caráter econômico, um corpo estranho que acaba com a exigência de licenciamento ambiental prévio nas obras de infra-estrutura. Hoje é uma estrada. Amanhã será uma hidroelétrica?”, questiona Paulo Adário, diretor da campanha da Amazônia do Greenpeace. “Pior: ao conceder automaticamente alicença depois do prazo máximo, o governo resgata um artifício usado durantea ditadura militar para legitimar seus interesses escusos – com o agravantede que a medida passa a valer pra todo mundo”.
Diversos estudos apontam que 75% do desmatamento ocorrem ao longo de estradas pavimentadas da região. Em muitos casos, como na rodovia BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA), somente o anúncio do asfaltamento norestante da estrada estimulou enorme migração de fazendeiros e madeireiros, o que resultou em altas taxas de desmatamento e modificação drástica da paisagem.
Até o fim de 2010, o PAC prevê a modernização, a pavimentação e a duplicação de quase duas dezenas de estradas, ao custo de mais de R$ 8 bilhões em investimentos públicos e privados. Entre as rodovias beneficiadas está a BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), cujo asfaltamento é defendido com unhas e dentes pelo ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, com o objetivo de pavimentar sua candidatura ao governo do estado do Amazonas em 2010.
Durante a votação, poucos deputados preocupados com os impactos ambientais dessa medida tentaram excluir da MP 425/2008 a dispensa do licenciamento, mas sem sucesso. Governistas derrubaram os dois destaques sobre o licenciamento. Ficou para esta quarta a votação de um último destaque sem relação com esses itens. Após concluída a votação, a MP 452 vai para o Senado.
Se aprovada pelo Senado, a emenda do deputado José Guimarães pode causar danos sem precedentes ao meio ambiente, em particular à Amazônia e o clima global. O Brasil é o quarto maior emissor mundial de gases do efeito estufa por causa da destruição da Amazônia. Zerar o desmatamento é a principal contribuição do país na luta contra as mudanças climáticas.
No entanto, iniciativas como a emenda do deputado José Guimarães, somada a outras em tramitação no Congresso – como o Floresta Zero, a MP da Grilagemeo lobby pelas alterações do Código Florestal – colocam em cheque as metas deredução de desmatamento assumidas internacionalmente pelo governo brasileirono Plano Nacional de Mudanças Climáticas.
“A campanha eleitoral, antecipada pelo presidente Lula para eleger a chefe da Casa Civil como sua sucessora, virou um trator que derruba tudo pela frente. A política ambiental está sendo sacrificada deliberadamente no altar da sucessão presidencial. E que a ministra Dilma não tenha dúvidas: o PAC, que poderia perfeitamente ser rebatizado de Plano de Aceleração da Catástrofe, vai abrir uma cicatriz irreparável na política ambiental brasileira e na imagem do país no exterior. E, desta vez, não haverá plástica que dê jeito”, disse Adário.
*Saiba mais:
*Leia íntegra da nota de repúdio das organizações não-governamentais sobreoassunto.
A NOTA DAS ONGS:
NOTA PÚBLICA SOBRE PAVIMENTAÇÃO DE ESTRADAS NA AMAZÔNIA
As organizações abaixo assinadas manifestam-se totalmente contrárias àtentativa de extinguir o licenciamento ambiental para pavimentação de estradas abertas conforme previsto no projeto de lei de conversão da medida provisória 452/2008 aprovado ontem (14/04) pela Câmara dos Deputados. A proposta pretende burlar a Constituição Federal, uma vez que é notório que o impacto maior ocorre após a pavimentação.Do mesmo modo consideramos inaceitável o asfaltamento da BR 319, obra sem viabilidade ou justificativa comprovadas, desconectada de qualquer projeto de desenvolvimento regional. A prioridade dada a essa estrada pelo Programade Aceleração do Crescimento (PAC) atende interesses outros que não a ligação entre duas capitais do norte do país. O asfaltamento da BR 319 servirá apenas para abrir a região mais remota e preservada da Amazônia à ocupação desordenada, além de deteriorar, via forte pressão migratória, a qualidade de vida da cidade de Manaus.
A pavimentação de estradas é o maior vetor de desmatamentos na Amazônia.
Historicamente 75% dos desmatamentos da região ocorreram ao longo das rodovias pavimentadas, como ocorreu na Belém-Brasília (BR 010), na Cuiabá-Porto Velho (BR 364) e no trecho matogrossense da Cuiabá-Santarém (BR163) . O simples anúncio do asfaltamento já é suficiente para estimular o desmatamento e a grilagem, como ocorreu na BR 163, apontada como modelo de implementaçao de infra-estrutura viária na amazônia, mas, ainda assim, uma das regiões onde o desmatamento mais cresceu nos últimos anos.
Essas iniciativas ameaçam a sustentabilidade da região e põem em risco as metas de redução de desmatamento assumidas pelo governo brasileiro no Plano Nacional de Mudanças Climáticas.
Amigos da Terra – Amazônia Brasileira
Conservação Internacional
Greenpeace
Instittuto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)
Instituto Centro de Vida (ICV)
Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (IMAZON)
Instituto Socioambiental (ISA)
The Nature Conservancy (TNC)
WWF Brasil

Aprendendo com Da Vinci‏


"Eu estou impressionado com a urgência de fazer. Saber não é o suficiente, nós precisamos aplicar o que sabemos. Ter vontade não é o suficiente, nós precisamos fazer."

Leonardo Da Vinci


Leonardo Da Vinci nasceu no dia 15 de Abril no ano de 1542 como filho ilegítimo de Piero da Vinci.

Da Vinci foi aprendiz de Andrea Del Verrocchio, famoso artista da época, mas logo desenvolveu o seu próprio estilo de pintura que se transformou em um alto padrão renascentista adotado vinte anos depois por Michaelangelo e Rafael.

O seu trabalho principal era a pintura, mas a sua mente imaginativa e inventiva o levou a outros campos do conhecimento, tais como inventor, cientista, engenheiro, arquiteto, escultor, músico, matemático, anatomista, astrônomo, geólogo, biológo e filósofo.

Leonardo teve muitas idéias a frente do seu tempo. Os diários que resistiram ao tempo mostram desenhos de novos tipos de relógios, máquinas voadoras etc etc etc.

Ele escreveu o primeiro livro sobre anatomia humana e foi o primeiro ser humano a compreender que a luz da Lua era um reflexo da luz do Sol.

"Salas pequenas disciplinam a mente, salas grandes a enfraquecem". Da Vinci.

Mas Da Vinci não completou os grandes projetos que ele desenhou em seus diários.

Da Vinci pulava de um tópico para o outro com grande velocidade, terminando pouca coisa em vida.

Nem a Monalisa ele entregou. Quando morreu, ele tinha em sua posse apenas 20 pinturas, entre elas a Monalisa. Aparentemente, ele ainda estava trabalhando nessas obras.

"A pior coisa do mundo é quando você vê a teoria vencer a performance". Da Vinci.

Nos dias de hoje, Da Vinci talvez fosse contratado como Chefe de Pesquisas de Alguma Universidade Famosa. Nada mais do que isso.

Ele deixou muitas anotações, mas pouca coisa prática para colocar em um portfólio de verdade.

Durante 35 anos, Da Vinci anotou os seus pensamentos em dezenas de diários, estima-se hoje que algo em torno de 100 volumes foram escritos. Muito se perdeu. Apenas 5 mil páginas foram preservadas, algumas delas arremetadas por Bill Gates alguns anos atrás.

"Uma vez que você tenha experimentado o gosto de voar, você passará a andar pela Terra com os olhos voltados para o céu". Da Vinci

Leonardo era o tipo de pessoa que hoje chamamos de "gênio". Mas ele tinha sérios problemas em focar sua mente em um único projeto por um longo período de tempo. Depois de resolver os problemas conceituais, Da Vinci perdia o interesse pelo assunto até que alguém o cobrasse de alguma coisa. Além disso, Da Vinci fazia o tipo perfeccionista sobre detalhes mínimos que ninguém conseguia enxergar. Essa é uma das razões porque os seus trabalhos nunca terminavam.

"Leonardo da Vinci foi um procrastinador irremediável. Leonardo tinha medo do sucesso, ele nunca deu o melhor de si para nada. Dessa maneira não existiam chances de falhar. É melhor sabotar-se a si mesmo do que se expôr ao ridículo." Giorgio Vasari, biógrafo de Da Vinci.

Pode-se dizer que Da Vinci foi o mais famoso Ser Humano com Distúrbio do Deficit de Atenção a passar pelo planeta. Por outro lado, talvez não tenha surgido na face da Terra, alguém com tantos insights relevantes para diferentes áreas como Da Vinci.

"Eu ofendi a Raça Humana ao entregar um trabalho que não atendeu a qualidade mínima necessária. " Da Vinci, no leito de morte.

Procrastinação é mais do que um defeito da nossa personalidade. É uma doença que precisa ser cuidada com carinho para não deixar se transformar em algo mais grave.

Eu penso que a melhor coisa que podemos tirar da procrastinação é a certeza do que queremos fazer na vida. Quando procrastinamos algo, é porque esse algo é a coisa mais importante para nós.

Se você tem dúvidas sobre onde é bom, no que é bom, ou sobre o quê realmente deseja fazer na sua vida, basta olhar para as coisas que você está barrigando com alguma desculpa furada.

Escrever diários, blogs, twitters, conversar no messenger é dú caramba, mas quais são as coisas REAIS que você tem entregue nos últimos tempos?

NADA MENOS QUE ISSO INTERESSA!

QUEBRA TUDO! Foi para isso que eu vim! E Você?

Ricardo Jordão Magalhães

O Homem Vitruviano

E-Mail e Messenger: ricardom@bizrevolution.com.br

BELO EXEMPLO

Vale mais que um trocado
Por Rodrigo Ratier
"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um? "Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão.
A ideia surgiu de uma combinação com os colegas da Revista Nova Escola: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações.
Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.
Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter
sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:
- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler. Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - "Esse do castelo, que deve ser de mistério" - para presentear a mulher que o esperava na calçada.
Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu: - Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:
- Sabe ler?, perguntei.
- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:
- Sim. Sei, sim.
- Em que ano você está?
- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.
Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor. Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...
- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.
Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.

* Os nomes foram trocados para preservar os personagens.

sábado, 18 de abril de 2009

Boto-cinza indica nível de poluição por mercúrio na costa fluminense e no Amapá


Mamífero estritamente costeiro, o boto-cinza dispensa grandes migrações durante toda a sua vida, tornando-se bioindicador das condições ambientais
Reza a lenda que o boto emerge das águas dos rios da Amazônia em noite de lua cheia e transforma-se em um belo rapaz, sedutor de donzelas indefesas. Longe de ser apenas um personagem que enriquece o imaginário popular brasileiro, o mamífero é um indicador natural do nível de mercúrio presente no ambiente aquático, por acumular esse metal tóxico nos seus tecidos. Essa é a tônica do projeto O boto-cinza (Sotalia guianensis) como sentinela da saúde dos ambientes costeiros: estudo das concentrações de mercúrio no estuário amazônico e costa norte do Rio de Janeiro, desenvolvido na Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), como dissertação de mestrado do biólogo Jailson Fulgencio de Moura, com auxílio de uma bolsa da FAPERJ.
O pesquisador escolheu como objeto de estudo a espécie boto-cinza (Sotalia guianensis), encontrada desde Santa Catarina até a América Central e membro da família dos Delfinídeos – a mesma dos golfinhos. "O boto-cinza acumula em seu organismo mais substâncias contaminantes presentes nas águas do que outras espécies que habitam o mesmo ecossistema, como os mexilhões. Isso ocorre pelo fato dele ser um animal que vive bastante, até 30 anos, o que aumenta o tempo de exposição às substâncias tóxicas", diz Jailson.
Além disso, o boto-cinza está no topo da cadeia alimentar e ingere animais que já têm no organismo um acúmulo prévio de mercúrio e de pesticidas organoclorados. "O boto-cinza se alimenta de lulas, camarão e peixes, especialmente do peixe-espada, o Trichiurus lepturus, um predador que acumula mercúrio proveniente de outras espécies que consome. Por mais que na água os níveis de mercúrio sejam reduzidos, o metal se concentra mais nos animais do topo da cadeia trófica", explica o biólogo, que teve como orientador na Fiocruz o professor Salvatore Siciliano.
Altamente tóxico, o mercúrio também representa um risco à saúde humana. Em mulheres grávidas, o metal atravessa a placenta e pode até causar danos hepáticos e neurológicos ao feto. Jailson alerta para o perigo de se consumir peixes que estão no topo da cadeia alimentar e, consequentemente, acumulam mais mercúrio: "Nos Estados Unidos, existe uma campanha que estimula mulheres grávidas e em idade provável de gravidez a evitar o consumo de peixes como o tubarão e o atum".
Outra vantagem de utilizar o boto-cinza como alvo da pesquisa é o fato do animal viver sempre na mesma região costeira, facilitando o diagnóstico da saúde do ecossistema. "O boto-cinza habita estritamente em regiões costeiras e não vive em águas profundas, apenas em áreas de até 50 metros de profundidade. Ele não realiza grandes migrações durante sua vida, de modo que sua saúde está associada às condições do ambiente em que vive. Essas peculiaridades da espécie permitem conhecer melhor os efeitos da ação poluidora do homem no ecossistema costeiro", diz.


Intercâmbio permite comparação com nível de mercúrio de botos da Amazônia

Com o objetivo de avaliar o grau de poluição dos ecossistemas marinhos, o biólogo observou 20 amostras de músculos de botos-cinzas que habitavam a costa marítima fluminense – de Saquarema até Barra de Itabapoana – e 27 amostras de animais provenientes do litoral do Amapá, que viviam no estuário do Rio Amazonas. "A possibilidade de comparar o nível de mercúrio encontrado nos botos-cinzas da Amazônia com o nível encontrado em animais da mesma espécie da costa fluminense surgiu a partir de um intercâmbio com uma pesquisadora do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (Gemam), que faz doutorado na Fiocruz, a Neuza Renata Emin Lima", conta.

A coleta das amostras no Rio de Janeiro foi feita a partir de carcaças de botos-cinzas recolhidas na praia pelo Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (Gemm-Lagos), do qual Jailson é subcoordenador. Já na Amazônia, o trabalho contou com a supervisão de um técnico da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), que coletou animais acidentalmente capturados por redes de pescas de embarcações da costa do Amapá. O Gemam desenvolve essa pesquisa a partir de uma parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e o Museu Goeldi, de Belém.
Após três meses de análise das amostras, realizada no laboratório da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Jailson teve uma surpresa. O nível de mercúrio encontrado nos tecidos musculares dos botos-cinzas da Amazônia foi bem menor do que o encontrado nos animais da costa fluminense. Nos mamíferos coletados no Amapá, o teor de mercúrio variou de 0,07 a 0,79 micrograma por grama (µg/g) de músculo, em peso úmido, com média de 0,38 µg/g. Já nos animais do Rio de Janeiro, a variação foi de 0,2 a 1,66 µg/g, com média de 1,07 µg/g.
"Acreditávamos que a atividade de garimpo na Amazônia tornaria o nível de mercúrio mais elevado na zona costeira marinha. No entanto, foi um dos menores níveis reportados para os mamíferos marinhos, o que indica que o metal está associado aos sedimentos marinhos, e não ao garimpo", destaca o biólogo, acrescentando que a poluição do trecho da costa fluminense estudado ocorre principalmente devido à influência do Rio Paraíba do Sul, que lança no mar dejetos industriais e agrícolas. Outra atividade que ameaça o ecossistema da região é o turismo. Morador da cidade litorânea de Cabo Frio, Jailson lembra que o município costuma receber até cinco vezes mais habitantes do que o normal durante o verão. "Questiono se a estrutura de saneamento da cidade é apropriada para receber todo esse público sem degradar o meio ambiente", pondera.
Apesar dos níveis de contaminação por mercúrio verificados no litoral de Saquarema até Barra de Itabapoana serem superiores àqueles observados na costa do Amapá, os valores encontrados na costa fluminense ainda não estão entre os piores do mundo. Níveis alarmantes já foram apresentados em alguns países da Ásia e da Europa. "Na região do Mediterrâneo e do Mar do Norte, já foram encontrados índices graves, superiores a 60 µg/g",
conclui Jailson.

Débora Motta


http://www.faperj.br/boletim_interna.phtml?obj_id=5367
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'TROQUE UM PARLAMENTAR POR 344 PROFESSORES' .

Sou professor de Física do ensino médio de escola pública em uma cidade do interior da Bahia e gostaria de expor a você o meu salário brutomensal: R$ 650,00.
Eu fico com vergonha até de dizer, mas meu salário é R$ 650,00. Issomesmo! E olha que eu ganho mais que outros colegas de profissão que não possuem curso superior como eu e por isso recebem minguados R$ 440,00.
Será que alguém acha que com um salário assim a rede de ensino poderá contar com professores competentes e dispostos a ensinar?
Não quero generalizar, pois ainda existem bons professores lecionando, mas atualmente a regra é: o professor faz de conta que dá aula, o aluno faz de conta que aprende, o governofaz de conta que paga e a escola aprova o aluno mal preparado. Incrível, mas é a pura verdade!
Sinceramente, eu leciono porque sou um idealista e atualmente vejo a profissão comoum trabalho social. Mas nessa semana o soco que tomei na boca doestomago do meu idealismo foi duro!
Descobri que um parlamentar brasileiro custa para o país R$ 10,2milhões por ano. São os parlamentares mais caros do mundo. O minuto"trabalhado" aqui custa ao contribuinte R$ 11.545,00.
Na Itália são gastos com parlamentares R$ 3,9 milhões; na França, poucomais de R$ 2,8 milhões; na Espanha, cada parlamentar custa por ano R$850 mil ; e na vizinha Argentina, R$1,3 milhões.
Trocando em miúdos, um parlamentar custa ao país, por baixo, 688 professores com curso superior !
Diante dos fatos, gostaria muito, amigo, que você divulgasse minha campanha, na qual o lema será:
'TROQUE UM PARLAMENTAR POR 344 PROFESSORES' .
Obrigado!!!
O País agradece.
Jeronimo Santos Da Silva
Cidadão Brasileiro
Educador. Musician. Author. Composer. Producer

http://www.myspace.com/mestrejeronimo

terça-feira, 14 de abril de 2009

Doença no canavial - Medicina investiga danos à saúde no corte da cana


Jovair de Oliveira, campeão no corte da cana por 20 safras, hoje não conseguenem capinar
Allan de Abreu - "Diário da Região".
São José do Rio Preto, 13 de abril de 2009

Jovair de Oliveira, 36 anos, sobreviveu 20 safras no corte da cana em Monte Aprazível. Tinha fama de campeão do podão, o facão afiado que corta desde o talo cada vara de cana-de-açúcar.

Ninguém podia com Jovair, que nunca cortava menos de 15 toneladas por dia. Chegava a 21, e ganhou até bicicleta da usina como prêmio pela produção.

Hoje, três anos depois de abandonar o corte, Jovair mal consegue capinar o quintal de casa. "O ar falta, fico zonzo, a coluna dói, o coração só falta sair pela boca. Parece que vou morrer. Meu filho pequeno dá risada, eu fico com vergonha. Não sei onde foi parar a fama de campeão.

"Há poucas semanas o médico de Jovair pediu uma ressonância do seu pulmão. Como o ex-cortador nunca fumou, a suspeita é que, após tantos anos inalando a fuligem da palha da cana queimada, ele tenha desenvolvido irritação no pulmão - não está descartado um tumor.

A dor de Jovair é o resumo do que sentem outros 40 mil cortadores que todos os anos vêm do Nordeste à região ganhar alguns trocados e fazer girar o capital dos usineiros.

No meio da cana, tudo conspira contra o cortador. O sol a pino desidrata, e o esforço físico repetitivo causa falta de ar e dores fortes na coluna e nas articulações. Se a dor de Jovair é palpável, a medicina ainda desconhece a fundo os efeitos da jornada da cana na saúde do trabalhador. Mas está bem próxima de conhecer, por meio de um estudo inédito no País financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Um grupo de 50 pesquisadores da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) vai aferir os estragos à saúde provocados pela safra da cana em um grupo de 100 cortadores de cana de Mendonça.

De uma simples cãibra ao câncer de pulmão, passando pelo risco de infarto, dores na coluna e estresse. "O estudo é único pela sua amplitude. Até agora, há pesquisas pontuais. Nenhuma abrangeu todo o impacto que a cana provoca na saúde do trabalhador", diz o pesquisador da Famerp Kazuo Nagamine, um dos coordenadores do projeto.

No Carnaval, os pesquisadores colheram amostras de sangue, muco nasal e aferiram a frequência cardíaca e a capacidade pulmonar. Haverá mais dois testes, durante a safra, na metade do ano, e no fim da colheita, em dezembro. Como padrão comparativo, os mesmos testes serão feitos com os 3,9 mil habitantes de Mendonça. Enquanto isso, ratos de laboratório serão expostos, no período da safra, às mesmas condições ambientais dos cortadores de cana. Inclusive a fuligem, um veneno de ação lenta: pesquisa da Unesp de Rio Preto de 2005 já apontava compostos cancerígenos do pó da palha queimado, os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). "Falta conhecer melhor a ação desses compostos no pulmão do trabalhador", diz Nagamine. Inclusive no pênis, alvo de outra pesquisa da Famerp.

A fuligem expõe a realidade da lavoura da cana. De longe, o verde macio do canavial embevece os olhos. Mas basta chegar um pouco mais perto para notar que a cor de um canavial é bem outra. O preto do pó da palha queimada se alastra pelo caule da cana, pela luva, pelo rosto do trabalhador, que quase nunca protege o nariz e a boca da fuligem suspensa no ar. Um risco certo para os pulmões já calejados pelo esforço físico.

"Aquele pó fica no nariz e não sai. Irrita, dá tosse. Chega a sangrar o nariz. Tenho colega que amarra camisa na cara, mas eu não gosto, incomoda. O jeito é se concentrar na cana, e tocar em frente", afirma o cortador Rubens Carvalho da Maceno, 41 anos, maranhense na segunda safra da cana em Macaubal. O câncer de pulmão tem uma peculiaridade em relação aos demais: os fatores ambientais preponderam em relação à herança genética. O cigarro é o grande vilão comum de tumores pulmonares, de acordo com o chefe do departamento de tórax do Hospital do Câncer de Barretos, José Elias Miziara. Mas nos últimos anos, o hospital tem atendido vários casos de cortadores de cana que nunca fumaram, com tumores no pulmão. Procurada pelo Diário, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) informou por meio de nota que só vai se manifestar sobre a pesquisa após a conclusão dos estudos.

Rubens Cardia Esteves sofreu com pressão alta e desmaios enquanto aplicava o glifosato no canavialNa cana, herbicida também prejudica saúde. Não é só o corte da cana que prejudica a saúde do trabalhador. O ciclo produtivo do canavial atrai doença até mesmo na lida com o mato que invade os eitos da cana. Poucas semanas antes do corte, entram em ação os matadores de mato. Comum a bomba de 16 litros de herbicida nas costas, varam o dia no despejo de um líquido que, em dois dias, mata tudo o que for verde, com exceção da cana. A palha que sobra é combustão para as queimadas, dias depois. Em Monte Aprazível, Celes Esteves, 51 anos, deixou de aplicar herbicina na cana há seis meses. Não volta "nem por R$ 3 mil de salário" depois de quatro anos de contrato com a usina Moreno. Antes, trabalhou 31 anos na ordenha de leite. "Minha saúde sempre foi boa, até eu entrar no herbicida", diz. Celes passou maus bocados com o glifosato, o principal herbicida da cana, comercializado pela multinacional Monsanto com o nome Roundup. Sentia coceiras na pele, que evoluíram para tontura, pressão alta e desmaios. Celes usava equipamentos de proteção, mas relata a falta de cuidados básicos com a segurança: o contato do produto com a moringa d'água e apenas duas trocas da roupa, lavadas em casa. Depois de ficar doente, foi demitido.

Rubens Cardia Gilmar Inácio, presidente do sindicato dos trabalhadores em Monte Antonio, César Trevisan, que trabalha para a Moreno, sente constantes alergias no nariz e dores de cabeça. Segundo ele, quando chove o veneno penetra na roupa e atinge a pele, causando coceira. "Tem colega que leva remédio para a pressão na roça. Eles querem que a gente morra trabalhando", afirma Trevisan, que já pediu para ser demitido. "Não aguento mais." As reclamações dos trabalhadores de Monte Aprazível têm respaldo na medicina. Segundo o toxicologista Igor Vassilief, ocontato contínuo com o glifosato pode causar visão turva, problemas respiratórios, variação da pressão corporal, desmaios e insuficiência renal. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Monte Aprazível, Gilmar Cândido Inácio, denunciou a falta de cuidados no uso do Roundup à Subdelegacia Regional do Trabalho em Rio Preto. O subdelegado Robério Cafagni pretende intensificar a fiscalização do uso de herbicidas nas lavouras da cana na região. "Temos recebido muitas reclamações. "Males da fuligem investigados.

Há cinco anos as estatísticas intrigam o médico urologista rio-pretense JoséCarlos Mesquita: por que a incidência de câncer no pênis é 85% maior nos cortadores de cana do que entre os homens da zona urbana, do total de pacientes tratados na rede pública de saúde em Rio Preto? E por que havia tumores no órgão genital em pacientes nas faixas dos 20 aos 40 anos, contrariando a literatura médica, que aponta maior incidência de câncer no pênis nos homens na quinta e sexta décadas de vida? A suspeita inicial recaiu sobre os agrotóxicos, mas foi logo descartada. Só poderia ser a fuligem. Mesquita e mais nove médicos da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) iniciaram então, há dois anos, uma pesquisa para provar essa relação. "Como a pele do pênis é sensível e se irrita com muita facilidade, acreditamos que o contato prolongado com a fuligem da cana provoque tumores", disse o médico. Mesquita não quis detalhar o estudo, alegando que a pesquisa ainda não foi concluída, o que deve ocorrer daqui a seis meses, segundo ele.

Informa apenas que há "indícios fortes" que conectam a fuligem ao câncer peniano. Multinacional nega danos. A Monsanto, multinacional que fabrica o Roundup, negou que o produto cause danos à saúde. Em nota, a assessoria da empresa afirma que o Roundup foi testado pelo governo federal brasileiro, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). "Nos Estados Unidos e em outros países o glifosato tem uso permitido para jardinagem doméstica, tamanhas suas condições de segurança", afirma a assessoria. "Estudos de biomonitoramento - avaliações feitas para analisar a exposição humana a substâncias químicas -,demonstraram que o princípio ativo do Roundup, o glifosato (...) não provoca danos à saúde dos trabalhadores, sendo pouco absorvido pelo corpo e eliminado sem alterações."

A multinacional ressalta que o produto "é o único já utilizado na reserva ecológica de Galápagos e para controle de plantas daninhas em patrimônios da humanidade como Pompeia, na Itália". A nota termina informando que "não é esperada intoxicação por Roundup ou por outros herbicidas à base de glifosato quando o produto é aplicado de acordo com as recomendações técnicas, segundo as instruções de bula e com o equipamento de proteção individual adequado". Oassessor da usina Moreno Valter Bigi disse que a empresa não tem conhecimento das condições de aplicação do Roundup na unidade de Monte Aprazível. "Vamos apurar e corrigir o que eventualmente estiver incorreto", afirmou.